segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

"Novi horas" mais correcto que "nov' horas?"

Andava eu a tentar perceber a tendência quase generalizada da pronúncia das expressões referidas na pergunta abaixo, quando me deparo com a explicação para a mesma dúvida ( já de 1997) no sítio http://www.ciberduvidas.com/

[Pergunta] Alguém dizia ser o e a letra do abecedário mais maltratada. Ouve-se, por exemplo, na publicidade, na política, com raras excepções: "novi horas", "di hoje", "di manhã", "di Agosto", "di ouro"...


Não seria mais correcto dizer "nov'horas" ou "nove horas"?

Luís Gaspar
:: publicitário :: Portugal

[Resposta] Lamento contrariar a sua sensibilidade auditiva, mas a elisão do -e em «nov'horas», «d'hoje», «d'amanhã» faz-se nas linguagens familiar e popular,e não em formas mais cuidadas de dicção, exigíveis aos profissionais da voz. Já pensou no que seria, se um locutor dissesse à sua maneira «senhores ouvintes, a peça qu'agora passamos é de...»? Ou « o primeiro-ministro disse qu'assembleia da República...»?

T.A. :: 01/02/1997

Ora a explicação não me convence nada, por um lado, porque os exemplos para demonstrar a cacofonia resultante da elisão do -e não é convincente, passe a redundância : no primeiro caso, o advérbio "agora" deveria então mudar de lugar na frase, o que seria muito fácil , sendo a redacção preparada antecipadamente; no segundo, foi omitido o artigo definido e a frase começaria por " o primeiro ministro disse que a Assembleia..." ( no exemplo teria que haver então uma elisão e uma contracção ) . De qualquer maneira, nunca ouvi pronunciar "qui agora " ou qui a assembleia..."

A sensibilidade do autor da pergunta é exactamente igual à minha e a elisão do -e, nestes casos, pela minha experiência e atenção à Língua Portuguesa não é apenas popular e familiar, porque até há bem pouco tempo ainda se fazia  a elisão do-a em trint'anos, por professores universitários mais velhos. Diz-se também "notícias d'interesse" e não di interesse" nem "de interesse".

A não elisão do -e provoca uma pronúncia que não é unânime e é intermitente, pelo que me é dado observar nos próprios "profissionais da voz", que ora dizem "novi ( donde vem este -i???) horas" ora "nove (uma pausa) horas", sendo neste caso, uma pronúncia forçada e pouco natural.

A generalização da pronúncia "novi horas" deve-se, na minha modestíssima opinião, a duas razões:

1) por um lado, a "contaminação"/analogia da pronúncia de "vinte e duas horas"  com elisão do -e e se diz "vint' i duas horas" "vint'i três" e por aí fora , e o falante perdeu a noção (em "novi horas") de que não existe nenhuma conjunção entre as duas palavras;
2) por outro lado, a interferência da Língua Portuguesa falada no Brasil , através das telenovelas e mais frequente convivência com brasileiros.

Eu, pela minha parte, vou continuar a pronunciar ( e a escrever) a Língua Portuguesa como os meus professores de Língua Portuguesa, velhinhos, me ensinaram, embora, por vezes, me sinta esquisita...num país em que "este é a série que todos gostam..." e "o brinquedo que todos gostam" ( sem o de ), talvez porque , nestes casos, seja mais fácil e já vá sendo aceite e repetido, com toda a naturalidade, até pelos profissionais da voz, como "haviam problemas" ou "tratam-se de problemas" - o correcto é evidentemente "havia problemas" ou "trata-se de problemas" ( ah se fossem os profissionais da voz os paladinos da Língua!!! e pudèssemos confiar neles para a defesa da Língua Portuguesa de Portugal!!!) .

Nota: O consultório de dúvidas do sítio http://www.ciberduvidas.com/ ainda se encontra inactivo e , assim, não posso fazer chegar até aí a minha opinião, como desejava.

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