segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Revisão da matéria dada

Iniciámos o caminho, quando éramos quase umas crianças, quase da idade dos nossos alunos.
Ao caminhar, aprendemos o que não se aprendera, nem nas Universidades, nem em estágios, nem em formações, nem teorias, mas no terreno e tudo, sempre, em constante mudança. Conhecimento que só se adquire com tempo e tempo e experiência.
Ensinámos pelo exemplo, a pontualidade, a assiduidade, o saber estar com os outros e tantas outras facetas da vida, porque há momentos em que não são precisas palavras.
Descobrimos livros juntos. Demos pistas não são só para o presente. Pensámos no futuro. Escrevemos juntos. Andámos à procura de respostas. Tentámos sempre melhorar.
Alargámos horizontes juntos. Chorámos juntos. Rimos e alegrámo-nos e ficámos felizes, quando os alunos estavam felizes e conseguiam ultrapassar-se e sonhar e nós com eles. Zangámo-nos com eles, porque nos importavam, porque não nos eram indiferentes. Alguns passaram na nossa vida sem deixar marca nem nós na deles. Na vida de outros, contribuímos, com um grãozinho de areia, para a sua formação. Em muitos ainda, deixámos uma marca tão forte que, quando nos encontramos, há uma cumplicidade intemporal nas nossas palavras, nos nossos abraços, nos nossos olhos e somos felizes por nos termos cruzado um dia, em que todos ganhámos.
Procurámos soluções todos juntos. Procurámos respostas a tantas questões. Nem sempre as encontrámos. Às vezes, não havia solução. Nunca desistimos. Desgastámo-nos.
Ensinámos o valor das palavras, o risco de não defendermos os nossos pontos de vista, escrevemos contos, dramatizámos narrativas, ou desdramatizámos. Preparámos visitas de estudo, visitas de escritores, publicámos jornais, criámos blogues, fizemos flores de papel para cortejos, aplaudimos nos interturmas. Um nunca mais acabar de actividades, só a imaginação ou falta dela marcava os limites. Nunca contámos as horas. Não contávamos com má-fé posterior.
Aprendemos outras formas de pensar, outras perspectivas. Sentámo-nos com eles e aprendemos a resolver “aqueles” problemas de informática. E era bonito ser aluno e professor ao mesmo tempo. Renovava-se a nossa energia. Rejuvenescíamos a cada ano que passava. E a nossa mente estava sempre desperta. Os alunos, crianças e jovens “formavam-se” antes das novas oportunidades ou ingressavam no mundo do trabalho. Esse trajecto ia sendo acompanhado, ou com orgulho ou com angústia, conforme os resultados
Gastámos energias. Mas cada dia, perante os alunos, a força voltava e até os problemas pessoais se esqueciam, depois de entrar a porta da sala ou da Escola.
Assistimos às doenças, à notícia do nascimento dos irmãos, aos primeiros amores, aos primeiros desgostos do coração, quando ninguém mais estava lá.
Fomos professores dos pais, dos filhos desses pais e dos irmãos e dos sobrinhos e dos primos e havia um elo inquebrável que ligava as nossas vidas.
Não faltávamos e passamos mais horas com os nossos alunos do que os próprios pais. Conhecíamo-los até melhor que os pais. Os pais sabiam. Com eles conversámos, concordámos, discordámos, encontrámos pontos de encontro, por querermos sempre o melhor para os filhos deles. Os pais sabiam. Sempre sabem quem quer bem aos filhos.
Chegou um Governo PS e uma ME e uns secretários de Estado e puseram em causa toda a nossa vida, todo o nosso trabalho, toda a nossa dedicação e o cerne da nossa profissão. Acusaram-nos de absentismo, de falta de rigor, de falta de trabalho, de privilégios sem fim, de interrupções a que a própria lei obriga.
Criaram aulas de substituição e nós, que já tínhamos sido professores, psicólogos, pais e mães, passámos a ser monitores de tempos livres (eu diria antes amas-secas), mas garante-se que é tudo uma maravilha e que os resultados espantosos dos alunos foram fabricados à conta destas medidas.
Garantiram que os professores nunca tinham sido avaliados, que andava tudo em roda livre, que era preciso controlá-los, escolherem directores, subordinarem-se às Câmaras, facilitarem/complicarem - um Estatuto do aluno em que os peritos em vadiagem eram igualados aos alunos que faltam por doença, com a ideia peregrina de que muitos faltavam para ir com os Pais passar uns dias na neve(!!!) - a vida aos alunos com provas que não provarão coisa nenhuma, porque os malandros não farão prova nenhuma, os doentes não terão tido tempo para se porem a par, os que foram para a neve também têm explicações…
E , para avaliar os professores? que melhor do que lançar a confusão, grelhas para preencher – é uma grelha tão fácil, disse algures o PM, com ar displicente, como se afinal grelhas, professores e avaliações fossem insignificâncias desprezíveis, que nem merecessem a importância que estão a dar a este assunto… Esqueceu-se é que , para preencher aquela grelha insignificante, inúmeras grelhas teriam que ser preenchidas antes dessa. Como se a nossa profissão, o nosso trabalho, a relação entre alunos e professores pudesse ser sujeita a uma qualquer regra e grelha de régua e esquadro…
Repetiram até à exaustão as razões da avaliação: os professores nunca trabalharam, nunca foram avaliados, não querem fazer nada, nunca fizeram (quando toda a gente sabe que as razões são outras, são razões economicistas que não enganam ninguém, não é por amor nem às crianças nem amor aos alunos, nem à Escola Pública!). Repetem tão convictamente um dia, outro e outro, essas razões que fingem com mais verosimilhança cada argumento, mas não convencem ninguém.
Desdobram-se em conferências de imprensa grotescas, rodeiam-se de emplastros aplaudidores e não ouvem, não vêem, nem lêem.
Os professores chegam à porta das Escolas com a alma amachucada (se até a tutela os desprestigia sem cessar!!!) e o ânimo frustrado. Perderam a alegria em qualquer esquina das manifestações a que são levados para lutar pelo seu prestígio e pela sua honra. Reencontram vagamente o entusiasmo, quando em presença dos seus alunos. Sentem-se cansados, não já dos papéis e burocracias e das horas perdidas sem alunos em Escolas, às vezes, sem condições para trabalhar. Mas de terem de demonstrar todos os dias a todas as horas as incoerências, as incongruências, a falsidade dos ataques, as ilegalidades. Cansados do mal-estar, olhamos os nossos colegas que ainda ontem eram companheiros e colaboradores, alguns dos quais se afastaram com uma etiqueta a dizer “avaliadores” e alguns (poucos enfim!) tomam-se do poder, agarram-se ao poder frágil e transitório e escondem-se atrás de ordens mal afirmadas (que para dar ordens é preciso ser competente e saber dar ordens). As conversas são sempre as mesmas, desanimadas e frouxas. Ou unidas e em luta. Alguns (poucos) de cabeça baixa, com segredos e portefólios a queimaram-lhes a vida, deles e dos outros. Porque um dia a Ministra da Educação e os Secretários de Estado findam, vão embora, mas os colegas vão continuar nas Escolas a viver e conviver uns com os outros, mas este mal-estar não vai ser esquecido… e, por vezes, esses poucos submissos e lerdos, lembram-se disso.
Acusam-nos de não sabermos nem ler nem interpretar, não intuímos o espírito da lei na nossa ignorância, não temos, nem artes divinatórias, nem dons para ler mentes tortuosas.
Aumentam-nos o tempo de serviço - com excepções para um grupo numeroso donde se esperam mais (???) votos - sem período transitório, quando nós sempre cumprimos a nossa parte legal e religiosamente. Argumentam a média da esperança de vida (com qualidade de vida?) e, ao mesmo tempo, escorraçam-nos sem dignidade. Por dinheiro.
Os colegas mais velhos, dignos e verticais, abandonam a Escola. Choram, uns por dentro, numa tristeza sem nome, outros derramam lágrimas verdadeiras, enchem-lhes os olhos, já não as conseguem segurar e fogem…Os governantes não sentem nenhum pesar, até parecem vangloriar-se, cínicos e perversos.
O elo entre gerações vai perder-se… A experiência e saber dos mais velhos serão ignorados…Nem poderão aliar-se à novidade e ao saber tecnológico dos mais novos… Tal como nos centros comerciais, desejam tudo novo, brilhante, lustroso e juvenil, como se a juventude se eternizasse, e a velhice tivesse que ser escondida e apagada, como se os brilhos e as luzes não falseassem todas as superfícies.
(Escrevo em borbotões o que me vai na alma, o que percebo e sinto, talvez tudo isto não faça muito sentido… prende-se a voz na garganta, comprimida, saem as palavras em lágrimas e um peso afoga-nos o coração, somos assim sentimentais!!!...)
Dentro de anos, compreender-se-ão as consequências destas medidas…. não haverá volta atrás…
Mas, enquanto houver conhecimento, haverá alunos, haverá professores e, muitas vezes, trocarão de papéis…
(E os professores continuam a ser mais respeitados – os pais continuam a deixar os filhos todas as manhãs nas Escolas – do que os políticos!!!)
No entanto, não há ditaduras… ( corrijo o lapsus calami ) … não há maiorias absolutas que sempre durem…

Alexandrina Pinto

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