quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Nesse ano de 2008 tudo tinha sido diferente.

Nesse ano de 2008 tudo tinha sido diferente.
Entrei em casa com passos arrastados de orgulhoso cansaço apesar daquela pequenita incomodidade, de um certo vazio, de uma certa incompletude … Seria da lassidão resultante da empresa…
Sentei-me à lareira e, em exercício de vaidade, trouxe ao pensamento a imagem do meu presépio...
Desta vez, só havia razões para me orgulhar. Nada de abrir em família as mesmíssimas caixas das figurinhas coleccionadas ano a ano, algumas já esborceladas, nada da agitação datada de 8 de Dezembro, nada de problemas porque o musgo não é quanto baste, nada das mesmas palhinhas de centeio a cheirar a seara… Conseguira até evitar a tradicional querela de quem ia colocar a estrela sobre a cabana …nada de flocos de neve ao acaso… Tudo tinha sido pensado com tempo, planificado ao pormenor, levado a um rigor que, a certa altura, senti enfermiço.
As figuras, num requinte quase snob, eram de design, as palhinhas tinham sido adornadas com pontinhas de ouro, a aldeia encomendada a arquitecto… A proporção, o equilíbrio, a harmonia, a perfeição de uma obra renascentista! Ao fundo, o rebanho pastava em “áurea mediocritas”, o fumo das chaminés dos lares apaziguados cumpria o “locus amenus”, os cânticos pairavam comedidamente em HiFi , a estrela tremeluzia numa suspensão cientificamente calculada e as ribeirinhas cantavam em movimento tecnológico…
O sono a querer apoderar-se de mim…
No meu presépio, nesse ano, não caía neve. Mudados os tempos, mudava-se o Natal e, com o aquecimento global, já não nevava em Belém. Tudo, tudinho, tudíssimo estudado ao detalhe. O esforço tinha realmente valido a pena. Lembro-me de me recostar no sofá, exausta, contente, vaidosa apesar daquela pequenita incomodidade, de um certo vazio, de uma certa incompletude … Seria da lassidão resultante da empresa…
Nessa noite de 2008, sentei-me na cama de sopetão, arregalei os olhos no escuro da minha presunção, o coração saltou-me no peito num enorme novelo de espanto… Com tanto plano, com tanto design e tanta ostentação, tinha-me esquecido do Menino!
Etelvina Pinto
Publicado no jornal Esalpicos da Escola Secundária Amato Lusitano, Castelo Branco
Dezembro de 2008


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