segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Testemunho

Escrevi no dia 26 de Fevereiro de 2007, aquando da publicação do diploma regulamentar para professor titular, que me sentia vazia, despojada da minha vida passada, porque, com esse “concurso”, e a abrangência do tempo de serviço que importava ( sete anos) tinha o Ministério da Educação apagado a minha vida profissional. Profissionalmente, não vivera.
Nada contava do que se passara nos anos anteriores ( vinte e cinco ou mais), nem a passagem pelo Conselho Directivo, nem pelo Conselho Pedagógico anos e anos como Delegate de Disciplina, nem como Director de Turma... Nem contava nonhuman actividade que dinamizáramos e em que colaborámos - outros trabalharam muito mais que eu - ( por exemplo, Visitas de Estudo, Feiras do Livro, Exposições, publicação do jornal, publicação de um livro de textos e poemas dos alunos - para o qual andei a pedinchar o dinheirinho de porta em porta como uma triste e "pobre de pedir"- Encontros com Escritores ( noutro dia, vi-me tão antiga que ainda me lembro de ver lá na Escola a Odette de Saint-Maurice !!!), o Dia do Francês com cantorias e danças e já nem me lembro do resto... Tudo fora do horário, evidentemente… Nem contava cada ano em que nem dera uma única falta ...
Quiseram pura e simplesmente apagar a minha vida profissional de uma penada... e, se calhar, como acreditavam que já andava muito motivada, ainda queriam humilhar-me mais e fazer-me crer a mim que nunca fizera nada e que não valia nada... mas estavam enganados, – escrevia eu - porque a minha consciência do trabalho com os meus alunos valia/vale(?) mais que um cargo estupidamente chamado titular e, embora me apetecesse chorar de raiva, não o ia fazer...
Andava eu estoicamente ( e não ando sozinha está bem de ver) a cumprir tanta burocracia e papelada em dias em que , por acaso lecciono noventa minutos de aula, elaborar planos disto e daquilo, relatórios deste e daquele plano, convocar os Pais e ficar com uma cópia da convocatória, convocá-los por telefone e registar esse passo por escrito, enviar informações, registar informações, verificar faltas, verificar se os alunos as justificam, elaborar sínteses disto e daquilo, arquivar todos os papéis sem falhar, precisava de um “guarda-livros” competente, chamar um aluno, verificar se ele come a sopa na cantina , se vai ao Apoio Directo, afinal a direcção do pai está ultrapassada, mudou de casa e não avisou, tentar corrigir alguns trabalhos, quase sempre interrompidos de dois em dois minutos, que está ali outro aluno que lhe quer dar uma palavrinha, pronto! fica tudo para fazer em casa… trabalhos que nunca ninguém vê… Começou o ano de 2008, como quem começa o ano lectivo, tal foi a catadupa de legislação que começou a chegar à Escola… nem tempo havia para ler tanta informação nova , quanto mais processá-la ( todo o trabalho já em curso – somos professores, também as aulas continuaram sempre!!!) , reuniões para tudo e mais alguma coisa, muitas perguntas, poucas respostas, a trabalhar no arame, a tentar adivinhar as entrelinhas, à espera de regulamentação de outros pontos, o esclarecimento de aqueloutros… Novo Estatuto do Aluno ( nem consigo perceber como Pais e Alunos aceitam certas propostas), Gestão das Escolas e, entre outros, a Avaliação de Desempenho… e, sobre esta, várias perguntas sem resposta, perguntas apenas ao correr da pena sem me debruçar profundamente sobre o documento, que isso dava para um tratado de filosofia barato:
1) formação dos avaliadores – alguém pensou nisso? ( Alguns avaliadores nem sequer “passaram” por um estágio clássico nem sequer tiveram nunca uma aula “assistida” nem sabem a sensação anómala que produz um observador numa sala de aula a professores e alunos, por exemplo;
2) Os avaliadores/avaliados, em muitas Escolas amigos desde sempre ou vivendo em “cordiais” inimizades vão avaliar-se uns aos outros em anos sucessivos? Não existem conflitos de interesses?
3) O timing para ser lançado tal documento é “perfeito” _ andam os Professores “lançados” na preparação ( falo nos de Língua Portuguesa e Matemática em particular) dos seus alunos para Provas de Aferição, Provas Intermédias, Exames ( a preparação não se faz de véspera… digo eu…)
4) As regras de observação – parece ser à vontade do freguês, rezando todos para que haja bom senso;
5) Horários/ calendários – reformulam-se horários? Faltam os avaliadores às suas aulas? Quem os substitui? Os pais consideram estas substituições correctas e justas para os seus filhos?
6) Os Projectos Educativos, Regulamentos Internos, Projectos Curriculares de Turma terão/teriam que ser reformulados à luz das novas regras – há tempo útil para tudo?
7) E o tempo ainda para analisar documentos , produzir instrumentos de avaliação/indicadores de medida o mais objectivos possível , preencher as fichas inerentes, em consenso com os colegas da Escola ( ou pensam agir sozinhos?) , esperar por recomendações superiores que chegam “às pinguinhas”, proceder às entrevistas de avaliadores e avaliados???
8) A nível individual, rezar , rezar muito para que as turmas atribuídas ( este ano , para o ano , para os seguintes) sejam formadas por alunos muito estudiosos , bem comportados e empenhados ( também se pode ter um outro alunos com mais dificuldades que se vai progressivamente avaliando com melhorias…não tem nada que saber!!!)
9) Esperar por um milagre para que o rapazinho ou rapariguinha que nunca vai à Escola e já está a trabalhar (?) – sou crente pronto-, apareça este ano …
10) E , para terminar rapidamente, embora ainda fique muito por dizer, não esquecer de arranjar tempo para formação contínua… ( aos sábados? ) dinamizar projectos e – NUNCA esquecer – continuar a preparar as aulas e leccioná-las e mostrar bom humor e óptima relação com os alunos, mesmo que…
E, apesar de tudo isto, enquanto alguns colegas se desorientavam, eu mantive-me relativamente calma ( sempre na esperança de que o tal bom senso prevalecesse… ) até à passada quarta-feira: dia de trabalho com alunos, sem alunos, com papéis , com etiquetas, com arrumações de armários, Pedagógico às dezassete horas … até às vinte e três e trinta ( então a dita reunião não tem regimento, não tem horas para duração ? tem , sim senhores, mas todos os assuntos eram tão urgentes, tão urgentes, só mais um bocadinho, só mais um bocadinho, e deu que deu…). Nem falo do cansaço físico, nem da noite sem dormir, nem do desânimo, nem da amargura, nem do abandono que sentem as nossas famílias … No dia seguinte, tive conhecimento do comunicado do ME, a propósito do Novo Estatuto do Aluno, tão aparentemente directo, mas cheio de rodeios . Afinal, essa Lei 3 estava em vigor, mas não estava, porque, se o Regulamento Interno das Escolas ainda não contemplasse essas novas regras, ( como podia? Só se os professores fossem adivinhos? E a meio do ano lectivo? Mudança de regras, é preciso avisar alunos e Pais …) continuaria a vigorar o Decreto 30 ( antes da Republicação) … Foi então que desmoronei, e chorei, como já vira outras colegas chorar, não por causa do trabalho a mais, burocrático, inútil, fora de tempo, nem por regras a meio do ano, nem pela família “abandonada”, nem pela sensação de que tudo tem de se recomeçar, mas pela humilhação, , pela desfaçatez, pela falta de rigor e de sentido comum, pelo desrespeito que revela pelos professores cada um destes passos…
Alexandrina Pinto
Professora de Língua Portuguesa do 2º ciclo, pelo 35º ano
também publicado em http://www.educar.wordpress.com/

1 comentário:

Templo do Giraldo disse...

Passei por aquipara te agradecer o comentartio.
Quando quiseres ja sabes passa la no meu espaço que eu irei fazer o mesmo também.

Saudaçoes.