sexta-feira, 28 de março de 2008

reforma antecipada


Educação
Mais professores querem trocar a sala de aula pela reforma antecipada




A saga começou há três anos ... Comecei a subir aquelas escadas com um peso no coração e chumbo nos pés, porque não ia para as aulas. Ia para a Escola tratar de papelada , substituir (pouco) colegas em turmas que não conhecia nem me conheciam , onde , cada um à nossa maneira , éramos intrusos.

Depois, chegava cansada a casa. Cansada da inutilidade. Do desrespeito. Por acaso, entre uma coisa e outra , dava aulas, onde esquecia durante noventa minutos, o peso no coração e a tristeza nos ombros. Durante noventa minutos. Não mais.

Depois e sempre acusada de todos os males do universo escolar e do universo em geral. Depois, a catadupa de legislação. Pensava numa lei à espera de ser assinada desde Novembro de 2007 para me ver livre de um Inferno de leis sem tom nem som , sem nexo aparente, com nexo apenas de economia de meios e de dinheiro sonante.

O peso no coração aumenta(va) a cada dia que subo aquelas escadas. Pela revolta, pela injustiça, pelo desencanto, pela tristeza. Nunca nos meus piores pesadelos pensei acabar assim a minha vida profissional, psicologicamente de rastos. Às vezes, esqueço-me durante escassos noventa minutos. Sinto que ainda teria energia para continuar e alguma utilidade na passagem de testemunho aos colegas mais novos e aos alunos.

Mas estou cansada. Cada dia o peso no coração é mais carregado, os pés sobem as escadas com uma angústia dolorosa e até vejo as costas curvarem-se-me de amargura. Não posso correr o risco de ser vencida por este peso. Foi por isso que no dia em que chegou, via net, à Escola "a lei dos 33 anos", pela manhã, em que me enfastiava de cumprir trabalho burocrático que me esperava o dia todo, o mundo ficou mais leve e o Inferno mais levadeiro, por ver uma luz que me tirava dali.

Pensava eu em tempos que sair da Escola iria deixar um vazio enorme na minha vida e sairia com saudades. Agora não. Será um alívio. O desencanto põe-me doente e eu preciso de me proteger. Proteger a minha tranquilidade de espírito, proteger a minha sanidade mental, proteger o que resta de boas recordações, em particular dos alunos. Proteger a minha vida. Os dias em que subia aquelas escadas com a alma leve e os alunos eram parte da minha vida, o meu entusiasmo, a minha razão de ser Professora!

Quando descer aquelas escadas, nem quero olhar para trás! Se eu chorar nesse dia ... é de raiva e revolta!

Como foi possível roubarem-me a alegria e o entusiasmo???


13 comentários:

NP disse...

O alívio... o alívio... que só lá para 2030 poderei sentir... :(

(que frio estava aí na Páscoa... :P)

Brotero disse...

Compreendo perfeitamente a colega. O seu desânimo é o desânimo dum povo, dum país, cujos governantes não percebem o que está a suceder. Infelizmente começa a não haver solução no actual quadro parlamentar. O país precisa duma valente varridela, mesmo dum verdadeiro acto patriótico para restabelecer a dignidade e a justiça de e para todos os portugueses.

jcosta disse...

Entre muitos desencantos que, em apenas três anos, tomaram conta de nós, este, o de ver abandonar a escola, precocemente, dezenas de profissionais que deram tudo o que de melhor possuíam à escola, tantas vezes sacrificando-se e sacrificando a própria família, é o que mais dói. Não estou a referir-me a qualquer um, não. Tenho no meu horizonte os melhores, que saem injustiçados, por uma porta bem grande mas que o ME e o governo, incansavelmente tornaram estreita de mais para eles a poderem franquear, todos os dias com a alegria com que sempre o fizeram em mais de trinta anos!
Saem, porventura, com o aplauso, pouco patriótico e pouco nacional, do ministério das finanças (assim mesmo em minúsculas), que não se importa de os ver partir, porque ao contrário da qualificação dos portugueses, que dizem defender, a saciedade prova o enorme desprezo pela escola, fundamentalmente por uma escola pública de qualidade, caso contrário não teriam criado todo este clima e ambiente que, em cada dia que passa, transforma a escola num lugar inóspito para quem aprende e para quem ensina.
Em três anos a escola pública portuguesa já regrediu mais de trinta, seja qual for a vertente da análise a empreender.

Carminda Pinho disse...

Renda,
eu consigo imaginar a raiva e revolta que sentes. Eu também a sinto por ti e por aqueles que se vêem forçados a fazer como tu.
Que m.... de país este.

Beijos amiga.

Sophiamar disse...

Não retiro uma palavra ao que aqui dizes. Estou de acordo contigo. Em absoluto!No meu caso foi um sonho de menina concretizado há muitos, muitos anos. Nos últimos três tornou-se um pesadelo.Esperava continuar mais uns anos mas, assim, não há saúde psicológica que resista. Não tenho nervos de aço. E começo a preparar a minha saída. Sem olhar para trás!

Beijinhosssssss

Outonodesconhecido disse...

Sinto muito a dor que sentes, mas esta é a escola que ao longo de 30 anos todos fizeram,polícos, pais, sociedade, professores, cidadãos, todos, incluindo nós.
Espero que se tenha chegado ao fundo para que haja força para vir ao de cimo novamente.. e que as forças não t faltem...

Meg disse...

Não sei em que posso ajudar, mas estou aqui na solidariedade. Hoje particularmente parca de palavras, só quero dizer-te que sei de cor o nome do TODOS os meus professores.
Não há nada que mereça o enorme sacrifício da nossa saúde.

O meu abraço

Ludo Rex disse...

Fiquei sem palavras...

Ana disse...

Entendo-te perfeitamente. Entendo o desânimo, o cansaço, a sensação de inutilidade. Quando aquilo em que acreditámos, aquilo porque vivemos anos e anos , se torna impossível, só há um caminho.
Podes descer as escadas com tristeza e terás saudades, sim, do tempo em que ser professor era um prazer e uma honra, mas descerás com a consciência tranquila pelo dever cumprido. Não hesites. Será um alívio e todos temos o direto de preservar a nossa sanidade mental e as boas recordações que ainda temos.
Um abraço solidário.

Vieira Calado disse...

O desencanto mora nas Escolas.
Já era no meu tempo de professor. Agora parece que ainda é pior.
Cumprimentos

Agulheta disse...

Terras Altas.
Tenho a dizer que ainda hoje tenho saudades e les de mim,dos professores que me ensinaram,a ser um bom cidadão que respeita para ser respeitado,mas o mesmo deve vir de casa ensinado,e nivél governamental,se está a fazer uma asneira grande,pois pode haver alguns que possa ser como dizem,mas não todos,mas tanbém é para tirar os mais "velhos" para depois ficar tudo uma rebaldaria completa, eu sei o que é chegar,par tomar o pequeno almoço,pensar ter de aturar pessoas que acham que somos paus mandados,para fazerem de nós o que querem! então que fiz reforma e não continuei,pois senão ficava maluca de ver tanta asneira,não foi até ao fim mas fiquei como gosto tranquila,o dinheiro não é tudo na vida,primeiro a saúde,mas posso dizer custa muito depois de anos a seguir a fazer oq ue se ama e gosta,quem sabe um dia comtarei a minha história.
Beijinho e vida para a frente Lisa

Porca da Vila disse...

Chora à vontade, solta a raiva que quiseres, mas não lamentes nada! A culpa não é tua!

Força!

Xi Grande

bell disse...

Conheço muitos professores com a mesma angústia. Eu própria, se pudesse, abandonava a profissão já amanhã, sem olhar para trás. A escola desencanta, mina as nossas forças e há tanta vida lá fora. Reencontro colegas que se reformaram o ano passado que me dizem: "ao princípio pensei que ia sentir a falta da escola, agora não, acordo de manhã e penso - o que vou fazer hoje? E há sempre tanta coisa interessante para fazer."